“O nosso futebol profissional é um activo estratégico para o Clube”

Os sócios estão com dificuldades em perceber porque é que um clube com a dimensão do Belenenses tem um relacionamento complicado com a sua própria SAD. Porque é que isto está a acontecer e quais são os pontos críticos desta relação?
Gosto sempre de olhar para esta questão da nossa SAD em perspectiva. A coisa é simples: o nosso futebol profissional é apenas um dos braços do clube, e o clube tem dezenas de braços. O que admito é que o braço do futebol profissional é aquele que tem mais visibilidade. Gosto também de lembrar que o Clube é o sócio fundador da sua SAD e que continua a ser seu accionista, com lugar no Conselho de Administração e com direito de veto em algumas questões sensíveis da sua actividade. E gosto também de lembrar que a SAD continua a ser um activo do Clube e, portanto, temos o dever de participar e de fiscalizar aquilo que é nosso. Temos esse dever e essa obrigação.

“Clube e SAD têm objectivos comuns mas interesses diferentes”

Mas as relações entre o clube e a sua SAD são positivas? Como estão neste momento?
O que se passa e se compreende com facilidade é que o Clube e a sua SAD têm um objectivo comum que é Vencer. Vencer sempre, a todos e em todo o lado. Mas, por outro lado, têm interesses diferentes.
O interesse do clube passa por tratar e gerir o seu património; por garantir a sustentabilidade financeira da instituição; honrar a tradição, a cultura e a história; ser competitivo nas suas modalidades; ser uma potência nacional no futebol de formação; tratar do seu Estádio e do Complexo do Restelo; tratar das suas diferentes concessões e dos seus arrendatários; cuidar do seu Museu; no fundo, ser o fiel depositário das memórias colectivas de todos os seus dirigentes e associados.
O interesse da SAD, como de todas as outras SAD’s, é o lucro, ponto final.
Posto isto, dizer-lhe que sou defensor, desde a primeira hora, de que Clube e SAD devem caminhar lado a lado lutando por objectivos comuns. No entanto, quando fiz a defesa desta tese sempre disse, com toda a frontalidade, que os contratos que herdámos deste negócio da venda da maioria do capital da SAD a uma empresa externa não defendem, nem de perto nem de longe, os superiores interesses do Clube de Futebol “Os Belenenses” e, portanto, este tem que ser sempre o ponto de partida de qualquer Presidente do Clube quando aborda este tema.

Mas concretamente o que é que os contratos dizem que não deviam dizer ou onde é que são omissos ou prejudicam o clube?
De uma maneira geral, os vários contratos e acordos que regulam as relações entre o CFB e a sua SAD incorporam na sua redacção muitas zonas cinzentas de difícil interpretação e aplicação, o que origina problemas muitas vezes desnecessários. Existem várias cláusulas que em vez de terem sido pensadas e redigidas com base em sinergias comuns foram-no com base em penalizações arbitrárias que não se compreendem. É importante neste tipo de acordos estabelecerem-se princípios sinérgicos e não de bases antagónicas, que prejudicam muitas vezes ambas as partes. Nestes contratos não se sabem as motivações que estiveram por trás do espírito de quem os redigiu, mas isso não foi respeitado. Por outro lado, no que toca ao Protocolo a que a SAD deve obedecer perante os órgãos sociais do Clube, quase nada foi acautelado, o que gera muitas situações desagradáveis pelo que entendemos que tudo isto tem que ser repensado, sendo certo que para dançar são precisos dois.

E em termos meramente desportivos está satisfeito com o comportamento da equipa e com a gestão desportiva da SAD?
Esta questão está muito para além da bola que entra ou da bola que vai para fora. Sei que há o risco de alguns sócios se concentrarem apenas nessa questão, mas isso é claramente errado até porque lembro que o futebol é como os interruptores, umas vezes para cima, outras para baixo, ninguém ganha sempre nem ninguém perde sempre, e temos que estar preparados para as vitórias e para as derrotas. Não podemos dar a cara nas vitórias e ter discursos vibrantes nos sucessos e escondermo-nos atrás dos holofotes nas derrotas. Posto isto, digo-lhe que o clube está satisfeito, em termos genéricos, com os resultados desportivos que a actual Administração da SAD e a nossa equipa sénior tem atingido, e tudo temos feito para que as relações entre Clube e SAD sejam as mais cordiais possíveis.

Falou-se numa Comissão Arbitral constituída por um membro do CFB e outro da SAD para discutirem essas zonas cinzentas dos contratos. Que resultados foram conseguidos?
A conta-corrente existente entre ambas as entidades nunca foi, até hoje, clarificada. Essa Comissão visa dar resposta a esta questão.
Por uma questão de respeito, até pelos dois elementos nomeados, não vou aqui entrar em pormenores, mas posso adiantar que foi definido um prazo relativamente curto para se poder, ou não, atingir um acordo que seja considerado satisfatório para ambas as partes.

Pode dizer-nos quem nomeou para essa comissão em representação do Clube?
Nomeei o Dr. João José Morão, o nosso Presidente do Conselho Fiscal.

Diz-se agora que solicitou a criação de uma Task Force constituída por elementos do Clube e da SAD para analisarem os restantes pontos em divergência. Confia na possibilidade de um acordo?
Pela minha natureza confio sempre que é possível chegar-se a acordos, principalmente quando ambas as partes têm mais a perder do que a ganhar se não se entenderem.
Caso seja possível chegar-se a um acordo, como esperamos, será excelente. Caso não seja possível haver um entendimento, também não acabará o mundo e no dia seguinte o sol nascerá de novo, o Clube e o seu Presidente estarão aqui para retirar daí as devidas conclusões. Com acordo ou sem acordo, estaremos aqui no dia seguinte para continuarmos o nosso trabalho.

Pode falar-nos das estratégias possíveis em caso de haver ou não acordo?
Não seria sério da minha parte estar aqui a antecipar cenários. Vamos confiar nas pessoas, no seu trabalho e no seu bom senso e depois, sem qualquer pressão, saberemos tomar as decisões que melhor defendam a Instituição Belenenses no seu todo.