Acácio Rosa é uma referência grandiosa e incontornável da história do Belenenses – e, aliás, também do Desporto Português.

Foi sócio do Belenenses durante 68 anos; é uma das 13 figuras que detém o mais alto galardão do nosso clube, a Cruz de Ouro; foi condecorado por inúmeras entidades, incluindo o governo de frança; foi duas vezes Presidente da Direcção e integrou ainda a Junta Directiva de três elementos (sendo os outros dois o Dr. Coelho da Fonseca e o Juiz Fernando Gouveia da veiga) que dirigiu o clube entre 1967 e 1969, em momentos de grande dificuldade, muito bem ultrapassadas; foi Presidente do Conselho Fiscal por duas vezes; introduziu no clube duas modalidades: o Andebol (de que foi o primeiro seleccionador nacional) e o Voleibol; durante anos, pagou do seu bolso as despesas da grande maioria das modalidades extra-futebol; pagou também a iluminação do Campo de Basquetebol nas Salésias; foi o criador do Grupo dos Mil e dos Prémios Pepe; estava presente quando o Belenenses foi intimidado a sair das Salésias e teve que procurar o terreno para construir um novo Estádio; Esteve presente, como Vice-Presidente, quando o Belenenses esteve na capital espanhola, convidado para inaugurar o Estádio do Real Madrid; esteve presente, na primeira linha, nas horas dramáticas em que o clube perdeu o Restelo e sofreu todos os enxovalhos e recuperações, ou quando se encetou a campanha para que no seu mastro voltasse a ser hasteada a nossa gloriosa bandeira; foi ele quem foi buscar o grande Matateu quando este, pela ingratidão dos homens, saía do Belenenses; foi ele que quis deitar a mão ao clube nas “horas” dramáticas de 82, quando nem dinheiro havia para produtos da enfermaria; foi ele quem levantou a voz para denunciar situações lesivas do nosso clube, designadamente no que respeita à utilização de dinheiros; foi ele o constante dinamizador das homenagens e testemunhos de gratidão às (outras) grandes figuras do clube; foi ele o grande historiador da nossa gesta, que consubstanciou em milhares de páginas.

Por tudo isto e muito mais ainda, pelo amor insuperável que dedicou ao nosso clube, merece amplamente Acácio Rosa o epíteto de “a Alma Belenense”; merece a gratidão consignada na atribuição do seu nome ao Pavilhão do Restelo; merece, enfim e para sempre, o respeito e a veneração de todos os “pastéis”.

Depois, e sobremaneira, foi e ainda é ele o grande historiador do clube, publicando 4 livros, que totalizam mais de 2.000 páginas, onde sumaria 75 anos de história do Belenenses. Escreveu ainda livros sobre Mariano Amaro e a propósito das Bodas de Ouro do Belenenses. É, aliás, muito graças às suas notas e aos livros que publicou que hoje é ainda possível confirmar factos, nomes e números da vida do Belenenses de forma minimamente sistematizada. É dele o grande mérito de escrever grande parte da nossa história e deixou-a em legado às gerações vindouras. Que se aprecie, aproveite e continue o seu trabalho – onde se misturam factos com paixão, nomes e números com pedaços de bela prosa -, são os votos que devemos formular.

A justificar os seus livros de história, escrevia Acácio Rosa:
“Tenho medo que as vitórias, os êxitos, os nomes dos que com ‘Camisola Azul e Cruz ao Peito’ fizeram grande o Belenenses, não cheguem às novas gerações.
Tenho medo que as páginas belas e trágicas da nossa história sejam lançadas à vala comum.
Este livro, tal como os três volumes já publicados, não é a História do Clube de Futebol ‘Os Belenenses’.
Para escrever a história do Belenenses seria necessário engenho, arte e saber.
O meu engenho, a minha arte e o meu saber foram, somente, ter a consciência tranquila de dar a conhecer às novas gerações do ‘Belém’, os nomes de todos aqueles que serviram e se apaixonaram por este Clube”.

A justiça para com as grandes figuras do clube, tantas vezes esquecidas em desfavor de efémeros ídolos com pés de barro, foi uma constante orientação de Acácio Rosa.

Numa Assembleia-Geral realizada em 1991, referindo-se ao principal fundador do Belenenses, propôs:

“ARTUR JOSÉ PEREIRA é a figura que encarna a mística do clube de várias décadas. Os Beléns – a juventude de hoje -, a família dos ‘velhos’ e dos novos que se orgulham de pertencer, de lutar e de sofrer pelo BELENENSES, têm a obrigação moral de prestar culto de amor e de gratidão a este HOMEM.
Que à entrada do nosso Estádio, se coloque a figura, o busto, que diga aos beléns de hoje e do amanhã: foi este o belenense que deu a todos nós o ideal que apaixonadamente vive em nossos corações!”.

Pertinaz e obstinado, com uma tão longa participação na vida associativa no clube, mesmo em idade avançada – quando, porventura, já não teria, compreensivelmente, o mesmo discernimento., certamente que cometeu erros. Pensar o contrário, seria esperar o impossível. Em algumas “guerras” não teria (toda) a razão. E foram várias essas batalhas, até dentro do clube. A mais prolongada terá disso com Mário Rosa Freire (curiosamente, também nascido em 4 de Setembro, mas de 1936), então Presidente da Direcção, para que fora em parte catapultado pelo próprio Acácio Rosa. Com ou sem razão nas diversas situações, Acácio Rosa merece que sejamos justos para com ele, pois, conforme as suas próprias palavras, em entrevista que abaixo se reproduz, “se alguma vez errei foi por excesso de amor, de lhe querer, de o desejar grande”.

O apoio de Acácio Rosa às modalidades amadoras foi uma das marcas da sua participação no Belenenses; e, por isso, é inteiramente justa a homenagem que lhe foi concedida quando se deu o seu nome ao nosso Pavilhão (algo que já fora proposto em 1982 mas que ele peremptoriamente recusara).

Por outro lado, ele desempenhou, e com sucesso, cargos no Futebol. A título de exemplo, a melhor classificação nos anos 60 foi obtida quando ele era responsável pela modalidade. Jogadores históricos como Amaro e Serafim das Neves, tiveram em si um indefectível amigo; Feliciano permaneceu no Belenenses, apesar de tentadoras propostas de outras países, também graças à sua acção: Matateu, afastado do clube, regressou ao Belenenses pela sua mão; repetidamente se insurgiu contra a venda de alguns dos nossos melhores jogadores, a troco de quantias que nada resolveram, e pedia para que tal prática cessasse.

Já nos seus últimos anos, em Setembro de 1988, e bastante afastado das lides dirigentes após episódios vários, Acácio Rosa daria uma entrevista à revista “A Bola” Magazine. Junto com a entrevista, vinha um magnífico depoimento por si escrito. Vale a pena reproduzi-lo quase na totalidade. Acácio Rosa, na primeira pessoa:

“Este amor pelo Belenenses tem origem, sobretudo, na minha naturalidade: nasci em Belém. Adoro Belém, penso que é a terra mais bonita do mundo, e eu já viajei bastante. Viagens que me divertiram e me afastaram de um dia-a-dia onde caíram, também, desgostos profundos. Não sou contra o progresso, mas isso não quer dizer que o aceite em todas as circunstâncias e não é por eu ser um homem de 76 anos que recordo com saudade episódios que ficaram lá para trás perdidos no tempo e, em termos desportivos, quiçá desvanecidos na história. 


Sinto-me cansado. (…)

Vejo o meu Belenenses e penso-o sofisticado. Como os outros clubes. Amo-o da mesma forma, mas mantenho na memória o campo do Pau de Fio e os trabalhos de construção das velhas Salésias, com o Joaquim de Almeida comandando a sua equipa de obras. Salésias que sempre sonhei pátria de ecletismo porque não posso conceber o Belenenses sem as modalidades amadoras, um Clube com a sua grandeza não pode ser só futebol.

O Belenenses é, para mim, um país dentro da nossa terra. Servi-o apaixonadamente, e se alguma vez errei foi por excesso de amor, de lhe querer, de o desejar grande. Tenho a consciência tranquila e por isso feliz, vivi intensamente o meu Clube durante sessenta anos! Hoje, sinto-o também com fervor clubista mas afastado do centro das decisões. 

Dei-me ao Belenenses, mas dele recebi inesquecíveis alegrias, galardões e amizades. São medalhas que guardo orgulhosamente.

Penso, sem sintomas de vaidade, não, não os sinto, que faço parte da mística do Belenenses, do meu Belém, sempre Clube digno e enorme até quando a sorte do jogo lhe é adversa.”

Que belas, magníficas, tocantes palavras, um autêntico hino ao Belenenses!

Consciente dos perigos de descaracterização que o nosso clube já então corria, Acácio Rosa, antes de morrer, deixou vários alertas.

Em 3 de Fevereiro de 1990, em entrevista ao jornal “A Bola”, dizia ele:

“Desejamos um Belenenses fiel à mística com que nasceu.
(…)
Estes dirigentes não têm sensibilidade. Deixaram o Amaro e o Serafim dois anos em total abandono. Quanto tive de lutar! Novos ricos… pobres de espírito.
O que mais me confrange é que a maioria dos beléns só pensa na bola que vai à trave, no “penalty” marcado ou deixado por marcar.
Pensem na “Cruz ao Peito”. Pensem que nascemos pobres, num banco da Praça Afonso de Albuquerque, que não temos a petulância das campionites. Pensem como foram construídas as Salésias, como surge o Restelo. Vendiam-se as melhores pedras, para se ter um campo.
Hoje temos dinheiro. Não temos gestão. Pensem que o Bingo não é eterno.
(…)
Estamos a ser ultrapassados por clubes que têm menos de metade do que nós temos. Não podemos ser subservientes. Temos a nossa independência. Respeitamos e exigimos igual reciprocidade a todos os clubes.
(…)
Belém: ACORDA. Pensa que o clube está em perigo.”

A terminar o seu livro de 1991, Acácio Rosa deixou palavras, de belo recorte, que são um testemunho perene e digno de ter em conta. É com a sua reprodução, que terminamos esta evocação:

“O clube corre um risco imenso nos dias de hoje. Não será um risco mortal mas é certamente o de ficar longos anos em situação de triste subalternidade a clubes que já acompanhou em décadas contínuas.
(…)
Que seria do Belenenses se os nossos pioneiros se desfalecessem frente aos escolhos que tiveram de enfrentar?
Os ideais vingam quando se encaram de frente as situações, quando os homens não perdem a coragem, não recuam nem mentem; sem tibiezas, nem equívocos, vale sempre a pena lutar.
O Clube de Futebol ‘Os Belenenses’ tem história. Não é fruto da existência de ‘mecenatos’ de motivação ‘política’ ou pasto para ‘endinheirados’ saírem da mediocridade.
Enfrentando mares encapelados, tal como as caravelas quando saem à barra, à aventura, entre a dor, o sofrimento e raras vezes a felicidade, assim tem sido a rota deste clube que todos nós, beléns, adoramos.
(…) 
Sem tibiezas nem falsas promessas, vamos todos lutar. É esse o nosso destino, para que possamos melhorar e depositar a herança recebida nas mãos dos nossos filhos.
(…) 
Um desejo me permito manifestar: que os Belenenses do Futuro amem o Belenenses como o vi ser amado pelos ‘rapazes da praia’ e que façamos a perpetuidade do clube, através dos nossos filhos e netos, mantendo viva a necessidade do aumento associativo.
Meu Deus! Somos tão poucos…”.

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Curriculum de Acácio Rosa: 

Acções e cargos desempenhados no Clube

Treinador dos Infantis de Basquetebol – 1928/30
Seccionista de Basquetebol – 1930/45
Seccionista de Andebol – 1932/45 e 1985
Jogador de Andebol – 1932/35
Introdutor do Andebol no Clube – 1931
Introdutor do Voleibol no Clube – 1938
Jogador de Basquetebol – inscrição nº 834 – 1939/41
Treinador da equipa de honra de Basquetebol, Campeão Nacional – duas vezes – 1938 e 1949
A seu cargo, manutenção dos desportos amadores no Clube – 1940/42
Iluminação a seu cargo do campo de Basquetebol nas Salésias – 1941
Presidente do Departamento de Futebol – 1945, 1949, 1961 e 1962
Vice-Presidente da Direcção – 1945 e 1947
Director e Editor do Jornal do Clube – 1945 a 1955
Treinador da equipa de Andebol “Onze”, campeã de Portugal – 1948
Capitão Geral do Clube – 1948, 1959 e 1960
Presidente do Conselho Fiscal – 1948, 1955 e 1956
Presidente da Direcção – 1949
Vice-Presidente da Assembleia-Geral – 1956
Membro da Junta Directiva – 1967 a 1969
Presidente do Grupo “OS MIL” – 1981/87
Presidente do Conselho Executivo – 1982
Editor da Revista do Clube – 1982
Seccionista de Andebol, Basquetebol, Voleibol, Hóquei em Campo, Rugby, Ténis de Mesa, Natação, Atletismo (masculino e feminino) em várias épocas.

Cargos fora do Clube

Árbitro de Basquetebol, nº12
Árbitro de Andebol e Voleibol, anos 30
Secretário da Direcção da Associação Lisbonense de Andebol – 1933
Selecção de Lisboa – 1º treinador – Andebol – 1945 a 1961
Treinador e Seleccionador da equipa de Portugal, Andebol, presente no Campeonato do Mundo (França) – 1948
1º Congresso da IHF (Paris) delegado de Portugal (Andebol) – 1946 – Paris
Membro de redacção das Primeiras Regras Oficiais, Andebol, 1947
Presidente da Comissão Central de Árbitros de Futebol – 1950 a 1953
Presidente do Conselho Técnico da Federação (Andebol) – 1958 a 1964
Membro da Comissão Central de Árbitros (Andebol) – 1965/67
Presidente da Direcção do Desportivo de Gouveia – 1960/62
Presidente da Assembleia-Geral do Desportivo de Gouveia – 1963/64
Presidente da Direcção da Federação Portuguesa de Andebol – 1966/67
Colaborador da Secção de Basquetebol da Revista “Stadium”

Galardões Recebidos

Sócio de Mérito de “Os Belenenses” – 1936
Sócio Honorário de “Os Belenenses” – 1942
Cruz de Ouro – Dedicação e Valor – Belenenses – 1947
Educação Física – Medalha de Ouro – do Governo Francês 1950
Reconhecimento – medalha – Estádio do Restelo – 1956
Mérito “Bons Serviços”, Governo Português – 1983
Medalha “MÉRITO MUNICIPAL” – C.M.L. – 1984
Medalha “MÉRITO DESPORTIVO” – Governo Português – 1985
Sócio Honorário da Associação de Futebol de Lisboa, Federação Portuguesa de Andebol e Associação de Andebol de Lisboa
Objecto de Arte dos Belenenses de Luanda – 1947
Emblema de Ouro e Brilhantes “O MAIOR” – oferta sócios belenenses – 1964
Insígnia de ouro – Federação Portuguesa de Andebol – 1965
Gratidão (Cigarreira de Prata) da Câmara Municipal de Gouveia – 1964
Salva de Prata (secções amadoras) Belenenses – 1966
Agradecimento (Objecto de Arte) Futebol Clube do Porto – 1984
Direcção do Belenenses (Salva de Prata) – 1979
O “Jogador de Andebol” da Associação de Andebol do Porto – 1984
Prémio Revista “OFFSIDE” – 1983
Salva do Sport Lisboa e Benfica – 1983
Objecto “Reconhecimento” Hóquei em Campo – Belenenses – 1984
Relógio Mérito – Federação Portuguesa de Futebol – 1985
Objecto de Arte – Congresso do F.C. Porto (Espinho) – 1987
Troféu “Gandula” – 1983
Placas de Homenagem do Benfica, F.C. Porto, Sport Algés e Dafundo, Campo de Ourique, Futebol Benfica, Ginásio Clube Português, Os Gouveenses, Veteranos do Andebol e “Madeira – Andebol”

 JMA