Passam hoje 25 anos – longos 25 anos – sobre a última grande conquista do Belenenses, pelo menos em termos de Futebol, sobre o último motivo pleno de júbilo da nação azul.

Ao vencer o Benfica por 2-1, na final da Taça de Portugal, arrebatando o troféu, o Belenenses reassumia a sua força e grandeza, e trazia o seu passado glorioso, enfim, para o presente (de então).

A final teve lugar no Estádio Nacional, que terá registado uma das suas maiores enchentes de sempre. Na verdade, foi mais que uma enchente: houve um autêntico transbordar de público, que, pelo menos nos topos, estava por todos os lados, nos corredores, nas coxias, apinhado em cima dos muros. Num recinto que, então, sem cadeiras, teria uns 55 mil lugares, terão pois comparecido perto de 60 mil pessoas. Os adeptos azuis (predominantemente concentrados no lado Norte das bancadas) eram cerca de 40%, somando, pois, um número que ficou entre os 20 e os 25 mil, vindos de todo o lado.

Foi uma final intensíssima, contra o Benfica, que ganhara o campeonato, e que tinha nas suas fileiras jogadores de grande qualidade – certamente um dos seus melhores plantéis de sempre. À maior valia técnica dos jogadores encarnados (contratados por um poder financeiro que não tínhamos nem de perto nem de longe), opôs o Belenenses a sagacidade técnica de Marinho Peres e o arreganho, a vontade e a crença indomável dos seus jogadores. Eles parecem ter correspondido ao estado de espírito com que entrámos no Jamor: com a alegria de estar na festa, com algum receio mas com uma voz íntima a dizer: “Tem que ser! É agora ou nunca!”. E foi! O “espírito” de conquista sentia-se no ar! No final do jogo, veio o merecido prémio para o grupo de trabalho e para uma massa associativa sequiosa de um grande triunfo e que nos anos anteriores fizera grandes sacrifícios, desde logo contributivos. Niso, eramos então singulares…

O percurso até à final, já descrito no artigo referente às meias-finais, tinha-nos enchido de uma esperança crescente. Deste essa vitória sobre o Sporting, que nos garantira a presença no Jamor, passou-se um mês e meio, cheio de expectativas.

Até que chegou o grande dia. O Belenenses alinhou desta forma: Jorge Martins; José António; Carlos Ribeiro (depois, Teixeira), Sobrinho, Baidek e Zé Mário; Chiquinho, Juanico, Macaé e Adão; Chico Faria (depois, Saavedra). Era uma equipa recheada de internacionais e que até se dava ao luxo de deixar Mladenov no banco.

O jogo começou com maior posse de bola do Benfica mas com a nossa equipa cheia de garra. À primeira oportunidade para o Benfica, respondeu logo o Belenenses com outra, na jogada seguinte, através de Chiquinho.

Por volta dos 25 minutos, há um passe de Juanico a desmarcar Chico Faria, que arrancou como uma flecha, naquele seu jeito de colar a bola aos pés, e deu um nó cego a Mozer – que fez uma falta… e ficou a chamar a atenção ao árbitro para marcar a falta que ele próprio tinha cometido, o que a acontecer beneficiaria o infractor e faria parar o nosso avançado. Este, impetuosa e decididamente, cavalgou para a baliza do Benfica. Só com o Guarda Redes pela frente, Chico Faria desviou-lhe subtilmente a bola, que foi para a baliza. Quando acabou a “eternidade” que demorou a ultrapassar o risco, foi o delírio entre os beléns, a maior parte deles situados por detrás dessa mesma baliza. Uma grande festa, uma explosão imensa! A nossa esperança redobrou, sentíamos que o triunfo era possível.

Na 2ª parte, a uns 20 minutos do fim, o Benfica empatou e tememos o pior. O nosso adversário ficara reduzido a 10 unidades, por expulsão de Valdo mas, logo a seguir, o nosso José Mário foi também expulso (saiu do terreno beijando a camisola).

As coisas pareciam estar a ficar feias para nós. No entanto, o Belenenses encheu o peito, foi lá à frente, ganhou um livre directo, e Juanico, a uns 30 metros da baliza, arrancou um tiro formidável (que andou semanas a passar na Eurosport) e a bola foi, indefensável, para o fundo da baliza. Foi uma explosão ainda maior! Parecia quase irreal, um autêntico êxtase!

No quarto de hora que faltava para os 90 minutos, e mais na meia dúzia de descontos, à tentativa esforçada do Benfica, respondeu o Belenenses com uma garra ainda maior. (Declarou Marinho Peres no final: “O Benfica é um grande clube mas para nos vencer, teria que ser ainda muito maior, maior do que ele próprio!”). Foram 20 minutos em que sofremos, cerrámos os dentes, gritámos, chorámos, reclamámos “está na hora!”, enchemos o estádio de “Belém! Belém! Belém”, até que veio o apito final. “A Taça é nossa!”. Depois, foi a grande festa, linda, sentida no fundo da alma. O capitão José António recebeu o troféu, e toda a equipa e técnicos veio mostrá-la aos adeptos, a um mar grandioso, imenso de bandeiras azuis, como nunca mais vimos. E foram abraços intermináveis, caravanas automóveis por aqui e por ali, a ida à nossa Praça Afonso de Albuquerque (sempre o local de celebração do Belenenses) e uma alegria imensa, indizível! Quebrara-se um “enguiço” de 29 anos – finalmente a cruz de Cristo voltava a inscrever-se num troféu de grandeza nacional, finalmente os seus adeptos podiam clamar um triunfo a plenos pulmões! (Nesses 29 anos, contudo, tínhamos tido vários lugares no pódio, presenças europeias assíduas e muitos feitos relevantes).

O Belenenses dá-nos poucas alegrias, talvez… mas, quando dá, só nós, belenenses, sabemos que são incomparáveis e que vale a pena tudo aquilo por que passamos!

E no entanto, ficar-nos-á sempre um amargo de boca. Esse podia ter sido o ponto de partida para um verdadeiro regresso à grandeza. Fechava-se um ciclo de 10 anos em que só Belenenses, Benfica, F. C. Porto e Sporting conseguiam vitórias em provas nacionais. Era um a grande oportunidade. Mas, afinal… Na semana a seguir, o clube tinha adormecido. Percebeu-se então que aquele marco era visto como um ponto de chegada, não o de nos catapultarmos para voos maiores. E vieram estes 25 anos….

JMA